Descubra a incrível história do Cancan e seu papel na emancipação feminina

10/11/2016.Letícia.0 Likes.0 Comments
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Mas afinal, como surgiu essa dança exuberante e provocante chamada de “French Cancan” ou Cancan francês?

Antigamente reservada aos homens e hoje atração turística de ar atrevido, saiba como ela está intimamente ligada com a emancipação do povo parisiense e principalmente: das mulheres.

Você que está lendo este texto agora, provavelmente já assistiu ao filme “Moulin Rouge!” (2001) do diretor Baz Luhrmann, que trouxe novamente à tona – com muitas cores e movimento – esse encantamento pelo Cancan, pelo absinto e por alguns personagens da Paris do final do século 19, como o pintor Toulouse-Lautrec.

Lembra?

A origem do Cancan

Agora vamos voltar aos anos 1820-1830, quando a “quadrille” (ou quadrilha francesa – que também está relacionada com a origem da quadrilha de festa junina no Brasil) tão em alta nos bailes e salões particulares de aristocratas e burgueses, começa a se popularizar através dos bailes públicos espalhados por Paris.

Só que ao invés de seguirem toda a etiqueta e sequência codificada da dança de elite, decidem substituir o minuto de improvisação conhecido como “cavalier seul” (ou cavalheiro solo) e permitido somente aos homens, pelo “chahut” (ou desordem), repleto de saltos, piruetas e gritos estridentes, no melhor estilo anárquico, exprimindo críticas, reinvindicações e transformando o então baile em espaço de improvisação teatral e coreográfica. Para o choque da sociedade francesa da época!

As revoluções e a liberação feminina

Este era o início de um período de anos de proibição, leis, decretos e muita perseguição policial aos frequentadores de bailes públicos, que eram presos, julgados e condenados.
Porém, fomentadas pelo espírito libertador das revoluções de 1830 (“Três Gloriosos” – Nova monarquia) e 1848 (Segunda República), algumas mulheres consideradas rebeldes e insolentes, decidem lutar pelo direito de dançar a quadrilha e o “chahut” sem ser guiada por um homem, adotam pseudônimos e começam a expressar nestes locais seu engajamento político.

A Rainha Pomaré (inspirado pela rainha do Tahiti) e Céleste Mogador (inspirado pela cidade marroquina que a França havia tomado como colônia) são nomes conhecidos deste movimento, que se expressavam não somente pela dança – quando o “chahut” passa definitivamente a ser chamado de Cancan – mas também através de publicações e crônicas em bailes frequentados por artistas e escritores, como o poeta Charles Baudelaire, que cita Pomaré em alguns de seus textos.

Pioneiras e admiradas por outras mulheres, elas simbolizavam a esperança para a população feminina de classes mais baixas, em uma época onde a ascensão social era quase impossível. Independência financeira então…

Em 1890, uma operária ganhava cerca de 2 francos por uma jornada de 10 horas de trabalho. Enquanto nos cabarés mais famosos, as dançarinas de Cancan mais renomadas ganhavam entre 300 e 500 francos por dia, muito mais que nos ateliês e lavanderias da cidade. Também pela primeira vez, as dançarinas ganhavam mais dinheiro que os dançarinos homens.

A glória do Moulin Rouge e suas dançarinas célebres

O Moulin Rouge – que tinha sido inaugurado em 1889 às vésperas da Exposição Universal – vivia o auge de sua história durante a belle époque, tendo como suas principais dançarinas, nomes como: Goulue (Gulosa), Jane Avril (conhecida também como Melinita – um tipo de explosivo), Grille d’Égout (Grelha de Esgoto), Nini Pattes en l’Air (Nini Patas pro Ar) e La Môme Fromage (A Jovem Queijo) que enloqueciam os espectadores roubando a cena, tantas vezes registradas em pinturas e cartazes de Toulouse-Lautrec e outros artistas, hoje clássicas estampas dos souvenirs de Paris e dos tempos boêmios de Montmartre.

E em meio ao patrão que exigia a perna cada vez mais alta e a lei que proibia tal dança subsversiva, o que elas arriscavam?
A maledicência e a marginalização de sua imagem, pois também eram consideradas prostitutas, que vendiam seus corpos aos cabarés. Além da vida pessoal geralmente solitária e dos frequentes riscos de acidentes, num trabalho que exigia muito fisicamente.

Sátira ao Exército, à Igreja e à moral burguesa?

É muito curioso descobrir que os passos do Cancan são em si, uma sátira às Forças Armadas, à Igreja Católica e à etiqueta burguesa. Não é a tôa que “Olá militar”, “Porte de Armas”, “Metralhadora”, “Catedral” e “Sino” são os nomes de alguns de seus passos clássicos.

E era abrindo espacates e levantando seus saiões, que as dançarinas sugeriam o desejo feminino, ainda que simulando uma feição inocente. Não só realizavam movimentos que evocavam cruamente a sexualidade, como também ousavam a inventá-los e nomeá-los, ridicularizando os padrões sociais e se apossando de um privilégio até então, dos homens.

Vendo as imagens abaixo, fica realmente muito clara a mensagem que os dançarinos e dançarinas passavam e o porquê a dança caiu rapidamente no gosto popular, derrubando muitos tabus.

O French Cancan ganha o mundo

Dançarinas de Cancan do Moulin Rouge nos dias atuais. Imagem: Le Moulin Rouge - Pinterest

Entre fascínio e desprezo, o Cancan transformava a sociedade francesa no início do século 20, se tornando atração turística em Paris e ganhando frequentadores estrangeiros, que a exportaram primeiramente para a Inglaterra, quando passa a ser conhecido como “French Cancan”.

Agora deixo vocês com a performance dos dançarinos do cabaré Paradis Latin junto à Orquestra Filarmônica da Radio France, para a música/opereta do compositor Jacques Offenbach (1819-1880): Orphée aux Enfers ou Orfeu no Inferno, que se tornou a trilha sonora mais clássica de todos os tempos para o Cancan, com seu chamado galope infernal. Com certeza, você a conhece!

Para quem vem à Paris e está interessado em conferir um espetáculo de Cancan, algumas opções de cabarés são:

Gostou do post e de ler mais sobre esta curiosidade da belle époque em Paris?

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