A loja do “Père Tanguy” – o nome por trás dos pintores Van Gogh e Cézanne

16/08/2016.Letícia.0 Likes.0 Comments
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E é caminhando pela rua Clauzel no bairro de Pigalle ou apenas “SoPi” (South Pigalle) – seu nome mais hype – que encontramos a galeria de estampas japonesas Père Tanguy, ainda fazendo referência à loja de Julien Tanguy, localizada neste mesmo endereço no final do século 19.

Vocês já devem ter visto este quadro de Vincent Van Gogh, certo?

Retrato do Père Tanguy, Vincent Van Gogh (1887-1888) - Museu Rodin, Paris

O Retrato de Père Tanguy (ou Pai Tanguy) de 1887, é sempre citado para exemplificar o período em que o artista inicia o uso de cores mais claras e vivas em suas obras. Muito se fala também sobre as seis estampas japonesas – chamadas de ukiyo-e – visíveis ao fundo, evidenciando a obsessão do pintor (e de todos os outros impressionistas) pelo japonismo, porém pouco se fala sobre o protagonista em si.

Julien Tanguy (1825-1894) foi um comerciante de tintas e outros materiais de pintura em Paris, que fornecia para os principais artistas impressionistas e pós-impressionistas, até então meros amadores, desconhecidos ou no início de suas carreiras promissoras. Toulouse-Lautrec, Claude Monet, Paul Gauguin, Auguste Renoir, Paul Signac, Camille Pissarro, Paul Cézanne e Vincent Van Gogh, foram alguns clientes assíduos de sua pequena loja na rua Clauzel entre 1874 e 1894.

Conhecido por seu caráter bondoso e generoso, não foi à tôa que carregou o apelido de “Pai” (Père, em francês).

Engajado política e artisticamente (participou ativamente da Comuna de Paris em 1871), se dedicava a acolher os jovens artistas e a apoiar novas formas de manifestação, técnicas e estilos na pintura.

E com isso, permitia que os artistas acumulassem dívidas na loja, vendendo fiado e aceitando telas em troca. Não que sua esposa concordasse, pois muitas vezes faltava dinheiro até para comprar comida para sua própria família.

Um depoimento (de um livro que estou lendo – citarei no final) diz que em um certo momento, havia tantas telas espalhadas na pequena sala anexa da loja, que mal podia-se caminhar entre elas ou ver a claridade das janelas. E foi a partir daí, que Tanguy se tornara então o primeiro colecionador e comerciante de telas dos artistas impressionistas.

E de todas as suas relações de negócios e amizade, destaca-se sua proximidade com os pintores Van Gogh e Cézanne.

Com o primeiro, holandês, ele desenvolveu uma verdadeira amizade, lhe enviando tintas e telas mesmo após Van Gogh ter se mudado de Paris para Arles e posteriormente para Saint-Rémy-de-Provence (lembrando que Van Gogh era um dos maiores consumidores de tinta, pois na maioria de suas telas ele pintava diretamente com o tubo, sem intermédio de pincel ou espátula).

Do artista, recebia pinturas e estampas japonesas em troca, e acompanhava também suas crises, baixos e efeitos da doença depressiva (e vício em absinto), como o episódio da mutilação de sua orelha, que deixou Tanguy profundamente abalado. Até que na noite de sua morte em 29 de julho de 1890, Tanguy era uma das últimas pessoas a visitá-lo em Auvers-sur-Oise.

Já quanto à Cézanne – o mestre de Aix-en-Provence, a relação de apoio também era parecida. Tanguy fornecia tintas e telas ao artista, em troca de telas pintadas, e dizia que ele era demasiadamente perfeccionista, chegando a abandonar algumas telas pelo caminho antes mesmo de terminá-las, seja nos campos em que pintava no interior ou em cada local que morava. Tanto, que foi graças à coleção de Tanguy que muitas das telas de Cézanne – hoje célebres – foram salvas para contar a história do artista!

Em resumo, se as gerações seguintes puderam conhecer as obras de Van Gogh (reconhecido somente após sua morte) e de Cézanne, Julien Tanguy foi certamente um dos maiores responsáveis por isso.

Alguns ousam dizer que Tanguy foi uma das figuras mais importantes do modernismo, pois sua coleção, ainda que desconhecida do grande público na época, conseguiu reunir obras de pintores considerados verdadeiros precursores do século XX, devido à sua mentalidade aberta, interessada e receptiva ao “novo”. E que sem a sua participação, os nabis e os simbolistas – movimentos artísticos posteriores – não teriam tido o mesmo olhar.

 Interessante, não ?

Então se quiser reviver essa história da loja do Père Tanguy quando estiver em Paris, não deixe de visitar a atual galeria de estampas japonesas que o homenageia, quando estiver caminhando pela região de Pigalle.

+Info útil:

Galerie Père Tanguy
14 rue Clauzel – 75009, Paris
Metrô: Saint Georges (linha 12) ou Pigalle (linhas 2 e 12)

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