A Street Art descoberta no bairro Butte-aux-Cailles

16/04/2016.Letícia.0 Likes.0 Comments
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E é no distrito 13 de Paris que começamos a explorar os traços da Street Art ou Arte Urbana na cidade.

Nosso destino: o agradável bairro de Butte-aux-Cailles ou “Morro dos Cailles”, que de origem industrial e popular durante os séculos 17-18, herda seu nome de uma família que possuía a maior parte de sua área em meados do século 16.

Pouco conhecido dos turistas, é um dos raros bairros em Paris que conseguem conservar ainda um ar de vilarejo, ideal para quem adora bater perna. Lá você não encontra apartamentos no estilo Haussmann, nem grandes avenidas ou restaurantes renomados. E sim, ruas de paralelepípedo arborizadas, casas pequenas e charmosas, alguns bares legais e muita, mas muita Arte Urbana ou Street Art.

Mas afinal, o que é Street Art?

  • É um movimento que reúne todas as formas de arte e expressão realizadas na rua ou em espaços públicos, longe do contexto das galerias de arte convencionais, englobando diversas técnicas como grafite, estêncil, mosaico, adesivos, cartazes (lambe-lambe), bem como instalações e outras novas intervenções – ex.: o yarn-bombing (peças de tricot) e . E principalmente: efêmero e visto por um grande publico.
  • Teve origem na década de 60 nos EUA – especialmente na cidade de Nova York, amadurecendo nos anos 70 e atingindo seu pico na década de 80. Na Europa, iniciou-se na mesma década, quando muitos artistas tiveram o Muro de Berlim na Alemanha como o principal alvo de suas manifestações durante sua existência (1961-1989), influenciando artistas pioneiros na França, com suas expressões artísticas de cunho politico ou crítica social.

  • A maioria dos artistas tenta através de suas técnicas, se comunicar e interagir com as pessoas que por ali passam, abordando temas sociais relevantes e muitas vezes trazendo uma provocação, alguns nunca revelando sua verdadeira identidade – como o célebre artista urbano britânico Banksy. Outros artistas veem o espaço urbano somente como uma plataforma para exporem seu trabalho pessoal, ou ainda, são motivados pelos próprios desafios e riscos associados à forma ilícita de instalar seu trabalho em locais públicos. Assim, o movimento de arte urbana está diretamente ligado com uma forte corrente de ativismo e subversão, sendo considerado ainda ilegal na França.

E se é ilegal, quem define o limite entre arte e vandalismo?

Se um artista urbano é flagrado pela policia em Paris, ele pode ser multado entre 1.500 a 37.500 euros e até mesmo ser preso por 2 anos, dependendo do local.
Alguns bairros são estritamente controlados como o Marais e o Quartier Latin. Já em outros, os artistas trabalham “mais ou menos” livremente, como em Montmartre, Belleville e no Butte-aux-Cailles.

Há muita discussão em torno do que pode ser considerado arte ou vandalismo, mas no final tem muito a ver com o contexto e a imagem do local, com a mensagem empregada e como a obra interage com a comunidade, com toda a identificação que o trabalho gera para o fluxo de pessoas dali ou não.

Atualmente existem até galerias de arte vendendo trabalho de artistas em pedaços de concreto, para quem deseja ter um grafite – por exemplo – na parede de casa, descaracterizando um pouco o conceito da arte urbana em si, que deveria estar nas ruas. Uma delas é a The Wall Galerie que trabalha com alguns dos artistas mais ativos em Paris, para quem quiser dar uma olhada.

Um fato é que esses artistas também tem contas para pagar, afinal. Então além dos trabalhos esporádicos encomendados pela cidade (locais públicos ou privados), esse conceito de galeria também os ajuda a terem renda.

Agora quer conhecer finalmente alguns dos artistas e obras que encontramos no Butte-aux-Cailles?

Dá uma olhada nos meus favoritos!

Entre eles estão: Jef AerosolMiss.TicSpace InvaderSeth – os artistas urbanos franceses mais conhecidos.

  • Jef Aerosol:

O artista francês mais conhecido, que iniciou o uso da técnica do grafite e estêncil ainda na década de 80, explora sempre o preto e o efeito negrito.

+Info / Outros trabalhos: Jef Aerosol – UrbaColors

  • Miss.Tic:

Artista que também iniciou seu trabalho na década de 80, explorando figuras femininas, sempre com um ar sexy, junto à frases de duplo sentido ou relacionadas às suas emoções e romances.

+ Info / Outros trabalhos: Miss.Tic – UrbaColors

  • Seth (Julien Malland / Globe Painter):

Artista que iniciou seus trabalhos na década de 90 e já grafitou muros em diversos países do mundo, inclusive no Brasil – Rio de Janeiro e São Paulo. Ilustra principalmente crianças reflexivas – geralmente de costas – com paisagens de cores vivas em segundo plano.

+ Info / Outros trabalhos: Seth – UrbaColors

  • EZK:

Artista que sempre retrata cenas com crianças – supostamente pobres ou em situação de miséria e fome, para passar uma mensagem contra o capitalismo e o consumo exagerado, incluindo logos e nomes de marcas de luxo.

+ Info / Outros trabalhos: EZK – UrbaColors

  • JM Robert:

Artista que realiza colagens de fotos, geralmente de rostos e aplica por cima a técnica do “pouring effect” – tinta que escorre, quando jogada no muro. Sempre explora cores vivas, dando um tom pop-art.

+ Info / Outros trabalhos: JM Robert – UrbaColors

  • RNST:

Artista que sempre retrata crianças brancas, de traços caucasianos e muitas vezes de olhar inocente, em cenas de violência, guerra ou terrorismo, para provocar a população européia.

+ Info / Outros trabalhos: RNST – UrbaColors

  • Urban Solid + SOBR

Aqui destaco os trabalhos do Urban Solid – dupla italiana que faz aplicações 3D nos muros – e os grafites do SOBR – que espalhou diversas cenas de mulheres dançando pela cidade numa série chamada: “It’s Time to Dance” (Hora de Dançar!), em referência à cultura clubber. O artista, que frequentava festas raves, passa cenas de suas fotos para o estêncil, tentando transmitir a conexão por trás do momento e a paixão pela dança por essas pessoas.

+ Info / Outros trabalhos: Urban Solid + SOBR – UrbaColors

  • Zabou:

Artista francesa e residente em Londres, se tornou conhecida em 2012 quando iniciou seus trabalhos explorando diversas temáticas – divertido, crítica política, ironia – mas sempre utilizando fundos de cores mais leves e doces, desenvolvendo um traço particular.

+ Info / Outros trabalhos: Zabou

  • Jana und Js:

Um casal que sempre tenta fazer interagir seus personagens com o público e com a arquitetura. Suas cenas geralmente mostram pessoas com câmeras fotográficas, observando prédios ou a própria pessoa que passa na rua, causando um efeito espelho.

+ Info / Outros trabalhos: Jana und Js – UrbaColors

  • Artiste-Ouvrier:

Artista que consegue realizar trabalhos de traços muito finos, misturando diversas cores, ainda com a técnica do grafite e estêncil. Trabalha com fotos como inspiração, geralmente de mulheres que transmitem certa sensualidade.

Abaixo vemos um trabalho num portão de uma casa do bairro, encomendado. Observa-se à esquerda uma referência à obra de Gustav Klimt – Retrato de Adele Bloch-Bauer I.

+ Info / Outros trabalhos: Artiste-Ouvrier – UrbaColors

  • Philippe Baudelocque:

Artista que impressiona com seus trabalhos delicados utilizando somente GIZ!!!

Sem nenhum tratamento por cima, somente uma camada de tinta de preparo na parede. Mesmo com as chuvas, o trabalho resta intacto por anos.

+ Info / Outros trabalhos: Philippe Baudelocque – UrbaColors

  • Space Invader:

Artista mosaicista queridinho-da-cidade, que se inspira em um jogo dos anos 80 de mesmo nome.

Espalha seus mosaicos pelos cantos de Paris e por todo o mundo, tendo trabalhos feitos até com mergulhadores debaixo do mar, com a agência espacial européia que colocou um de seus mosaicos em uma aeronave e diz em seu site oficial que foi o único artista vivo a ser exposto no Museu do Louvre, durante um dia, quando conseguiu espalhar 10 mosaicos nos cantos das paredes com a ajuda de um fotógrafo.

+ Info / Outros trabalhos: Space Invader- UrbaColors

+ Info útil:

E para conferir de perto esses trabalhos – ou outros novos, pois o cenário é vivo e ativo – veja um trajeto sugerido, começando pela Rue des cinq Diamants.

Ah! E para aqueles que também quiserem conhecer o lado vilarejo do bairro (sobretudo se o dia estiver bonito e ensolarado), é so andar até a Rue Daviel e no número 10, você encontrará o que os parisienses chamam de Petite Alsace ou “Pequena Alsácia” – um conjunto de casas em estilo colombage, muito característico da região francesa Alsácia, que faz fronteira com a Alemanha e a Suiça.

Em frente a este local, há também a Villa Daviel, uma ruela charmosa e arborizada, que nos leva para longe da Paris movimentada e nos faz invejar os proprietários de suas casas.

Metrô: Corvisart (linha 6) ou Place d’Italie (linhas 5, 6 e 7).

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